Academia para terceira idade – a verdadeira história

Todos nós sabemos dos benefícios da prática de exercícios físicos para as pessoas de terceira idade: melhora a qualidade de vida delas, a saúde e a longevidade. No entanto, se praticar uma atividade física com má orientação pode trazer problemas sérios para uma pessoa jovem, esse risco se agrava inúmeras vezes para as pessoas de terceira idade.

Hoje está se tornando uma prática comum Prefeituras de todo o Brasil disponibilizarem academias para terceira idade grátis em parques e praças. Uma boa iniciativa, com certeza, mas é possível que os maiores benefícios não sejam colhidos pelos idosos e outros usuários.

Descubra a verdadeira história sobre as academias para terceira idade disponibilizadas gratuitamente pelas Prefeituras !

Para que serve a academia para terceira idade?

Numa praça aberta ou num parque, idosos, jovens e crianças se “exercitam” num conjunto de aparelhos feitos de tubos de metal, pintados em alguma cor vibrante. Não são brinquedos. São aparelhos de ginástica, embora a maior parte seja completamente diferente dos aparelhos disponíveis em academias convencionais.

Enquanto numa academia convencional sabemos qual o nome dos exercício e qual parte do corpo é trabalhada nos equipamentos, você já parou para pensar sobre quais exercícios e quais trabalhos são feitos nesses aparelhos de ginástica grátis ?

Sabe também que melhorias nas capacidades físicas e nos indicadores bioquímicos eles promovem? Será que todo tipo de pessoa pode se beneficiar deles, e sem se machucar? Ou será que só os idosos muito sedentários conseguem aproveitá-los? Há um jeito certo de usar os aparelhos?

A realidade é que a maior parte das pessoas não tem essas respostas embora as academias para terceira idade (ou academias ao ar livre) já estejam presentes em milhares de cidades brasileiras.

Os dois motivos por que uma Prefeitura monta uma academia para terceira idade

Academia para terceira idade grátis pode ser mais benéfica para a reputação dos prefeitos do que para a saúde dos usuáriosComo as Prefeituras são responsáveis por pagarem uma parte dos gastos da saúde pública no Brasil, sobre o aspecto financeiro é bem interessante que as pessoas idosas da cidade tenham uma boa saúde e precisem de menos atendimento médico. Esse é bom motivo para se montar uma academia gratuita.

Um outro motivo, não tão divulgado, mas que provavelmente prevalece sobre o primeiro é que grande parte das academias para terceira idade grátis são doadas por uma empresa, em troca de uma pequena publicidade. E como a imprensa costuma divulgar com destaque a inauguração de uma academia grátis para terceira idade, a Prefeitura tem uma ótima exposição na mídia sem gastar dinheiro para isso. Excelente para os projetos políticos dos prefeitos…

Algumas pessoas podem sentir algum incômodo sobre a esperteza de certos prefeitos mas até aí não há nada a se questionar.

O grande problema é o como essas academias foram concebidas e se realmente trazem benefícios.

A origem das academias para terceira idade grátis

Como foram concebidas essas academias? Alguém sabe quais as vantagens delas ? Você irá encontrar tais repostas no trecho seguinte, transcrito da uma reportagem da Revista Época, feita por Francine Lima, que aborda o mesmo tema:

“No último sábado, abordei adultos e adolescentes que usavam os aparelhos de metal no Parque do Ibirapuera, em São Paulo. Perguntei a eles para que serviam os equipamentos que estavam usando. Deram-me respostas diferentes. Um dizia que o “Simulador de caminhada” servia para alongar as pernas, mas outro fazia a tal caminhada simulada tão rapidamente que supus que ele pretendia fazer ali um trabalho cardiovascular. A placa de identificação do aparelho não dava instruções. Só marcava numa ilustração quais eram as partes do corpo supostamente trabalhadas. Fiquei com a impressão de que os usuários não estavam bem informados.

Ontem, conversei com Heraldo Guiaro, da administração do Parque do Ibirapuera. Ele me contou que os 52 aparelhos instalados no parque foram doados por uma empresa chamada Physicus, de Auriflama, no interior de São Paulo. Doados. Antes de aceitar a doação, porém, a administração do parque teria se reunido com gente da Secretaria Municipal de Esportes para avaliar a qualidade dos equipamentos.

Roberto Rivelino, profissional de educação física da secretaria de esportes, confirmou a história por telefone. “Nós vimos as fotos do catálogo da Physicus e a descrição de como funcionavam”, me disse Rivelino. As fotos. Então ninguém viu os aparelhos pessoalmente antes de aceitar a doação? Ninguém verificou o design das peças, a mecânica dos movimentos? Ninguém pediu referências da empresa? Não compararam os produtos com equivalentes de outras marcas? Não fizeram perguntas para o responsável técnico da Physicus? Não. Rivelino me disse que não fizeram nada disso. Quando finalmente receberam o carregamento, tudo que verificaram foi o acabamento das peças.

Bem, agora os aparelhos estão em pleno funcionamento, e os usuários parecem estar gostando. Perguntei a Roberto Rivelino sobre as funções de alguns aparelhos e as alterações benéficas que eles promovem no corpo. Falamos especificamente de um que lembra um volante. Rivelino disse que esse movimenta as articulações e a musculatura dos ombros, e que é para ser um complemento de outras atividades físicas. Mas que tipo de trabalho muscular se executa ali, e que tipo de qualidade física está sendo melhorada? Seria a força? Não. O aumento da massa muscular? Não. A resistência muscular? A capacidade cardiovascular? Rivelino fez silêncio.

Não estava fácil conseguir respostas. Procurei então o responsável por outra academia ao ar livre na cidade. O Hospital Samaritano, que patrocina a Praça Irmãos Karmann, administrada pela Subprefeitura da Lapa, me informou investiu R$ 220 mil na revitalização da praça e apenas R$ 10 mil na compra e instalação da academia ao ar livre, em outubro do ano passado. (É muito barato. Numa academia convencional, um único aparelho pode custar metade disso.) Embora o Hospital Samaritano tenha bancado tudo, “quem desenvolveu o projeto e deu as diretrizes foi a Coordenadoria de Áreas Verdes da Secretaria de Subprefeituras”, disse a assessoria de imprensa do hospital.

Continuei procurando um especialista que me falasse dos critérios técnicos para aprovar a compra dos equipamentos pela prefeitura. Afinal, era um projeto municipal para melhorar a saúde da população, e imaginei que houvesse um especialista em envolvido. Não achei.

Resolvi ir direto às origens: a fabricante da academia. Ali certamente alguém saberia me dizer como os equipamentos foram criados, que estudos de mecânica e fisiologia foram feitos, que argumentos científicos foram usados para convencer tantas prefeituras a apostar nesse tipo de exercício como solução para a qualidade de vida dos idosos e da população em geral.

Com a dica do Samaritano, achei a empresa Ziober, sediada em Maringá (PR). Quem me atendeu foi Aluizio Marques Junior, diretor comercial da empresa. Ele me disse que a marca Ziober já está em 1300 municípios brasileiros, em quase todos os estados, totalizando mais de 2000 academias ao ar livre. Disse também que cerca de 70% delas são projetos de prefeituras, mas que também estão em condomínios, clubes e outros locais privados. “Só em São Paulo já temos cem academias”, afirmou Junior, como prefere ser chamado.

Junior começou a contar como esse sucesso todo começou. Ele diz que, há cerca de cinco anos, quando ainda era vendedor de livros, viu no Globo Repórter uma matéria sobre uma academia ao ar livre na China. Achou que era uma ótima ideia e cutucou seu “amigo de boteco” Paulo Ziober, que na época trabalhava como dobrador de tubos. Justamente os tubos de aço-carbono de que são feitos hoje os aparelhos da Ziober. Resolveram montar um negócio juntos, e deu muito certo.

E como um vendedor de livros e um dobrador de tubos de repente viraram empresários bem-sucedidos do ramo de fitness? Achei que Junior iria dizer que contrataram um designer ótimo, especializado em aparelhos de ginástica, mas não foi nada disso. Junior diz que foram eles dois mesmo que criaram os aparelhos, baseando-se no que conheciam das academias convencionais. E que, só depois que estava tudo pronto, chamaram um “professor de ergonomia” de uma universidade local e um conhecido professor de judô da cidade para dar o aval.

O primeiro cliente da Ziober foi a prefeitura de Maringá. Junior conta que o prefeito se empolgou com a ideia, até porque não precisou tirar um tostão do bolso. A Unimed patrocinaria a primeira (que custou menos de R$ 20 mil) e várias outras das 42 academias ao ar livre da cidade. O projeto foi batizado de Academia da Terceira Idade (ATI), e ganhou um slogan poderoso: “Quem vai para a ATI não vai para a UTI”. Logo, logo, as ATIs viraram um ótimo negócio não só para a Ziober, mas também para as empresas de saúde e as prefeituras, que passaram a aparecer na mídia como criadoras de programas públicos de qualidade de vida.

E para a população, foi um bom negócio? Voltei às perguntas sobre as funções dos aparelhos e os benefícios dos exercícios para a saúde. “Não lembro direito as funções dos aparelhos”, confessa Junior, o criador dos mesmos. “Mas procuramos fazer de um jeito que fosse seguro para a terceira idade. Para os jovens não dá muito resultado de ficar musculoso, porque são aparelhos sem peso. Não há relatos de alguém que tenha se machucado.”

Ainda assim, Junior acredita que a academia seria mais benéfica se as prefeituras assumissem a responsabilidade de orientar os usuários. Segundo ele, dificilmente elas mantêm um profissional instruindo as pessoas sobre como se exercitar ali. Sem isso, como saberão se estão mexendo os músculos e gastando energia na melhor medida possível?”

Academia para terceira idade muito além da saúde: promoção para prefeitos

Pelo que vimos acima, as academias para terceira idade grátis foram concebidas por pessoas sem conhecimento de Biomecânica, explorando um nicho de mercado que é a auto-promoção de Prefeituras e prefeitos.

Não há como avaliar se tais academias são boas ou más sem que haja uma estatística de lesões associadas a elas. Elas podem até mesmo ser excelentes mas existe um risco por que foram concebidas por pessoas sem conhecimentos de Biomecânica. E como os usuários fazem o exercício de qualquer jeito, sem orientação alguma, o risco de lesões aumenta ainda mais !

A população, é claro, acolhe muito bem uma inciativa de disponibilizar gratuitamente uma academia para terceira idade. É capaz inclusive de mostrarem a aprovação votando no atual Prefeito em uma re-eleição ou na disputa para um outro cargo político.

No entanto, ainda falta a população o senso crítico de avaliar os reais interesses que levaram a montagem da academia e dependendo deles, se ela realmente é benéfica para o povo ou apenas para a reputação do político…


Fonte: revistaepoca.globo.com, Francine Lima, 17/02/2011

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