Adriano, do Flamengo, e o alcoolismo: mais uma vítima

Adriano é mais uma vítima da terrível doença que é o alcoolismo – nesse caso uma pessoa famosa, com muita divulgação na mídia. O problema que vive é muito divulgado mas em nada é diferentes das milhares de pessoas que estão doentes, dependentes do álcool.

Adriano serve para alertar quem ainda insiste em encarar o alcoolismo como uma coisa menor, boba, que “uma cervejinha não faz mal”. Ele tem uma grande quantidade de recursos para buscar um tratamento para sua dependência e mesmo assim não consegue – infelizmente grande parte dos alcoólatras não tem sequer uma fração desses recursos

Para quem torce por Adriano sua recuperação como jogador profissional parece cada vez mais longe enquanto ele não buscar um tratamento para sua dependência, assumindo que tem um problema sério.

Toda a conduta de Adriano mostra a de uma pessoa gravemente de pendente do álcool:

“A condição imposta pelo Flamengo foi ignorada por Adriano. No início do mês passado, Zinho decidiu dar uma nova chance ao atacante após o sumiço nos últimos dias de setembro. Ao saber que o jogador cogitara a aposentadoria, o diretor de futebol se reuniu com o camisa 10 em 1º de outubro e avisou que só o perdoaria se ele passasse a frequentar o consultório de um psicólogo. O clube indicou um profissional, mas Adriano não apareceu. Na última terça-feira, ao confirmar oficialmente o desligamento do Imperador, Zinho lamentou a quebra da promessa, disse que a condução do caso chegou ao limite e que esbarrou no próprio Adriano.

– Foram dados o número do telefone e o endereço do profissional para ele, o empresário (Luca) falou que chegou a marcar uma consulta com o psicólogo, mas ele não conseguiu ir. O próprio psicólogo disse que é ele (Adriano) quem tem que tomar a atitude, não pode ser obrigado. Acho que um clube como o Flamengo motiva qualquer ser humano. Ele não conseguiu ter essa motivação total para se recuperar. Depende só dele, ele querer – afirmou o dirigente, que pretende ajudar o jogador como amigo após a rescisão de contrato.”

A negação de Adriano em procurar tratamento para sua dependência só contribui para afastá-lo cada vez mais dos campos e da belíssima carreira de jogador profissional que construiu. Na avaliação do psiquiatra Marcelo Migon, membro da Associação Internacional de Psiquiatria Esportiva e especialista em dependência química da Universidade Federal de São Paulo, Adriano está doente e que já deveria ter sido submetido a um tratamento intensivo.

“Ele foi contratado em 22 de agosto. Sabia que não poderia ter faltas, que com três advertências por indisciplina o vínculo seria interrompido. Pouco depois, ele esquece o contrato e falta. Pede desculpa ao clube e diz que não vai se repetir. Depois acontece a mesma coisa e recebe a terceira advertênca. Uma pessoa que no dia 22 de agosto diz que vai se adaptar ao profissionalismo e não consegue tem uma doença. Não é porque o tendão inchou. Ele tem um problema e já sabemos qual é, que envolve o consumo exagerado de álcool. O que isso mostra? Mostra que não tenho mais o poder de decidir o que faço da minha vida. Eu não controlo mais a minha vida. Isso é um dos pontos centrais da dependência química, a perda do controle. Essa é a característica da doença. Ou a pessoa recebe o tratamento específico ou não terá saída. Entendo que hoje ele precisaria no mínimo de um acompanhamento 24 horas por dia, de um cão de guarda. Tem de ser feito o bloqueio de acesso a qualquer tipo de pessoa que o prejudique, tem que limpar a casa, tirar todo o álcool, tem que ser radical. Se não modificar a vida dele radicalmente, a doença vai continuar. O Flamengo não conduziu da forma correta. Não tem nada de depressão porque perdeu o pai. O problema é o álcool – frisou o médico, que já conversou informalmente com Adriano em algumas ocasiões.”

 

O problema de Adriano é agravado por que ele parece se negar a passar por um tratamento psicológico e, aparentemente, seu círculo de amigos aproveita-se da fama e do dinheiro dele, esquecendo o ser humano que está gravemente enfermo do alcoolismo.

Como o psiquiatra Marcelo Mignon relata,

“O tratamento do dependente químico envolve a família. Às vezes alguém da família acha que é bobagem, diz para ele tomar uma cervejinha, mas é essa cervejinha que conduz ao padrão de uso exagerado, abusivo. A família precisa aprender. A casa dele tem que ser limpa, jogar álcool no lixo. Se nos próximos três meses conseguir se manter em abstinência, você tira esse cão de guarda. Nesse momento, precisa de alguém. Eu deixaria internado. Internaria numa clínica. Seria da clínica para o treino, do treino para a clínica. Sem visita dessas pessoas que querem se aproveitar da fama dele. Atendo alguns profissionais que passam horas na clínica, dormem e saem de manhã para trabalhar. Não interrompe a carreira, consegue ter a segurança de que está dormindo num local confortável, alimentação e que vai treinar. Aceleraria a recuperação. Desta forma, eu o colocaria para jogar em um mês, quarenta dias, num trabalho em conjunto com a parte médica e física.”

 

Adriano parece procurar esquivar-se do alcoolismo e de assumir a responsabilidade pelo problema fugindo e brigando com a imprensa, negando e até mesmo agredindo quem lhe questiona. É o que se percebe pela fala de Mignon:

– É medo de assumir a responsabilidade pelo problema real que existe hoje. Ele se defende agredindo. Eu conversei com ele algumas vezes e ele dizia: “Tem nada, não, tem nada, não”. Ele nega, agride. É a forma que a pessoa que está acuada usa para se defender. A questão do controle é uma das características centrais. A outra é a negação. Ele cria boas justificativas, passa por coitado, perdeu o pai, menino pobre. Você vê vários meninos que saem de baixo, como Neymar, Robinho, que não seguiram esse caminho. Zico não era rico. Veio de baixo. O Ronaldo (Fenômeno) veio de baixo. Não veio da favela, mas o primeiro apartamento que ele comprou foi em São Cristóvão. Um apartamento de um quarto para morar com a família. 

 

Infelizmente muitas pessoas pensam que a conduta de Adriano reflete uma má conduta dele, uma falta de caráter. Elas estão enganadas: o alcoolismo de Adriano é uma característica hereditária, não um defeito dele. Adriano não é culpado por ser alcoólatra, mas é responsável por se cuidar…

O alcoolismo de Adriano serve de alerta para as pessoas que insistem em ignorar a gravidade do problema do alcoolismo: com todos os recursos a sua disposição eles na conseguem vencer a dependência… Infelizmente a maior parte dos dependente do álcool não tem uma fração desses recursos.

Torcemos pela recuperação do Adriano, pois independente do clube que ele estiver, curado do alcoolismo ele ainda tem muito a fazer no futebol brasileiro.


Fonte: globoesporte.com, Richard Souza, 08/11/2012

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