Aprenda a fugir do efeito sanfona ao fazer um regime

Fechar a boca e malhar. A velha fórmula do emagrecimento não está mais com nada. Apesar das dietas restritivas e dos exercícios intensos queimarem gordura, em pouco tempo a balança volta a subir. Afinal, ninguém aguenta um regime espartano.

Para a nutricionista Joana Lucyk, adepta de um novo ramo da ciência chamado nutrigenômica, a aposta mais recente é o estudo da interação entre nutrição e genes. “As dietas hipocalóricas não atendem as necessidades dos micronutrientes. Adequam os macros, como proteínas e carboidratos, mas deixam de equilibrar as vitaminas e os minerais”, diz a profissional da clínica Saúde Ativa.

Ela explica que, quando a pessoa emagrece, as células de gordura se abrem, liberando não só a energia acumulada, mas também uma boa quantidade de toxinas, que seguem para o fígado. Com a falta de nutrientes específicos, o órgão não consegue processar as substâncias tóxicas, o organismo entra “em pane”, e o resultado é que o peso perdido pode reaparecer. O princípio desse ramo da nutrição é equilibrar as substâncias que circulam pelo corpo, combatendo os processos inflamatórios das células que levam ao acúmulo de gordura.

O segredo da dieta nutrigenômica, portanto, não está na proibição dos alimentos, mas na combinação correta dos elementos que vão conseguir “desligar” os genes responsáveis pelo ganho de peso. A tabela de calorias pode ser ignorada pelos praticantes do regime. “Se você pegar uma porção de biscoitos recheados, que tem 150 calorias, e 200ml de açaí, que tem 220 calorias, o obeso vai preferir o biscoito, que tem menos calorias. Só que ele também tem gorduras trans e saturadas, além de carboidratos simples. Já o açaí tem substâncias anti-inflamatórias. Ao se trabalhar só com as calorias, as pessoas podem fazer escolhas erradas”, defende Joana Lucyk.

Ênfase errada em restringir a ingestão de alimento no regime

A ênfase nas estratégias de restringir a ingestão de alimentos combinada com o aumento de atividades físicas é combatida pela professora Simone Lemieux, do Instituto de Alimentos Funcionais da Universidade de Laval, no Canadá. Ela é autora de um estudo recentemente publicado pelo Journal of the American Dietetic Association, no qual defende que, em vez de se preocupar com peso, as pessoas deveriam ser convencidas a pensar na melhoria da saúde. Simone chama o novo paradigma de “Saudável em qualquer peso”, ou HAES, sigla em inglês, e explica que o objetivo não é focar a perda de quilos, mas a perseguição a um estilo de vida saudável. Segundo a pesquisadora, os médicos deveriam aconselhar seus clientes a aceitarem seu peso e abdicarem das dietas, sem, contudo, descuidar da saúde.

O estudo levou um ano e foi realizado com 144 mulheres obesas ou acima do peso em estágio de pré-menopausa. Parte delas foi incluída na abordagem HAES, e outra parte, na tradicional. No começo, no meio e ao fim do programa, os pesquisadores fizeram anotações sobre comportamento alimentar, sensações de fome, atividades físicas e perfis metabólicos e antropométricos das participantes. Depois de um ano, eles descobriram que a ingestão de alimentos em reposta à percepção de fome foram significativamente menores entre as mulheres que seguiram o paradigma da saúde, comparado ao grupo de controle. Consequentemente, elas comiam menos e perderam peso. “Esse resultado sugere que a abordagem da saúde pode ter efeitos benéficos sob comportamentos alimentares, o que leva à perda e à manutenção do peso”, disse, no estudo, Simone Lemieux.

Para a funcionária pública Raquel Rodrigues, 32 anos, a manutenção é a parte mais difícil da dieta. Ela conta que desde criança se considerava gordinha e, aos 13, começou um programa de reeducação alimentar. Apesar de perder peso facilmente, eles voltam com a mesma rapidez. “Em duas semanas, consigo emagrecer ou ganhar 4kg”, conta. Com 1,65m, Raquel está de mal com a balança e diz que não quer verificar o peso tão cedo. Mas sabe que está longe dos 73kg que já pesou. “Foi meu ápice. Na outra extremidade, meu peso mais baixo foi 52kg”, conta. Para ela, será difícil chegar novamente à marca. “Como já passei dos 30, não consigo chegar nem no meu peso almejado, que é 54kg. Mas tenho certeza que vou pesar 56kg”, diz.

Apesar de comer de três em três horas, se exercitar diariamente e ainda frequentar um programa de reeducação alimentar, Raquel diz que a perdição da dieta são os lanchinhos engordativos. “Não caio em tentação com comida, como arroz e feijão. O que me faz sair do sério é besteira, tipo salgadinho, crepe e chocolate”, diz.

“Gap energético”

Manter a boa forma física é um sofrimento para as vítimas do chamado efeito sanfona. Por isso, estratégias que garantam que os quilos perdidos não sejam achados nunca mais vêm sendo objeto de estudo de várias pesquisas internacionais. Nos Estados Unidos, a Universidade do Colorado associou-se à companhia Procter & Gamble para descobrir onde está o problema. Encontrou no que os cientistas classificaram de “gap energético”, um conceito que, segundo eles, precisa ser usado como ferramenta para entender e combater a obesidade.

O termo cunhado refere-se à quantidade de energia consumida diariamente, que vai garantir a manutenção do peso. Para isso, não é necessário, de acordo com os pesquisadores, andar com uma tabela de calorias ao lado – basta analisar o próprio comportamento alimentar e fazer pequenas adaptações, seja ingerindo menos alimentos ou fazendo um pouco mais de exercícios físicos.

A grande novidade do estudo é que as adaptações são, de fato, ínfimas, e não exigem contagem calórica nem horas e horas sobre a esteira ergométrica. Segundo o principal autor da pesquisa, James O. Hill, para os adultos, o “gap energético” é de apenas 100 calorias por dia, enquanto que, para crianças e adolescentes, pode variar entre 100 e 150 calorias. Isso significa que, ao deixar de consumir esse valor – equivalente a uma barra de cereais comum – ou se movimentar para perdê-lo, é possível estacionar o ponteiro da balança.

“Com exceção da cirurgia bariátrica, não vejo programas de sucesso para ajudar as pessoas a manter o peso. Muitas pessoas conseguem perder bastante com as intervenções cirúrgicas, mas são poucas as que continuam magras por longo tempo. O ‘gap energético’ pode ajudar a estimar o grau de mudanças no comportamento alimentar para garantir essa manutenção”, disse Hill ao Correio.

Ele lembra que, anteriormente, os médicos acreditavam que seria necessário privar seus pacientes de muito mais calorias para evitar que engordassem novamente. Uma pessoa de 100kg que perdeu 15% da gordura corporal, por exemplo, teria de cortar três vezes mais energia do cardápio. “Já que a abordagem tradicional pode exigir intervenções dramáticas, como tratamento cirúrgico ou fármaco, acredito que as políticas públicas de combate à obesidade deveriam focar mais na abordagem de pequenas mudanças alimentares”, defende.


Fonte: Correio Braziliense, Paloma Oliveto, 01/01/2010

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