Artes marciais podem ajudar a previnir osteoporose em idosos, aponta estudo

Quem pensa que as lutas são esportes para jovens pode ter uma surpresa na aula do mestre Deo, professor de jiu jitsu. Esbanjando vitalidade e saúde, Deoclécio Paulo, 76 anos, é a prova viva de que esse tipo de atividade pode combinar com a terceira idade.

O professor, que há mais de 65 anos se dedica à arte marcial, corrobora com a conclusão de especialistas de que, tomados os devidos cuidados, as lutas podem ser uma boa atividade para os mais velhos manterem a vitalidade e até mesmo prevenir doenças como a osteoporose.

A história de mestre Deo com o esporte começou ainda na infância. E ele garante que não tem prazo para acabar. “Eu comecei para não apanhar dos meninos na rua. Quando entrei para o exército, continuei lutando. E, agora que me aposentei, essa é a minha principal atividade”, conta. Para ele, mais do que um exercício para o corpo, o esporte também trabalha a mente. “Muitos consideram algo violento, do que eu discordo. É como um jogo de xadrez, no qual você tem de antecipar os movimentos do oponente e tentar agir antes dele”, completa.

Uma possível aposentadoria está fora de cogitação. “Eu não tenho pressa para parar. Se isso acontecer, eu vou fazer o quê? Ficar em casa?”, questiona o lutador, que, depois de alcançar a mais alta graduação no esporte, dá aulas para pessoas de todas as idades. “Além do mais, foi aqui que eu fiz meus melhores amigos. Tenho meus alunos como filhos, então não pretendo me afastar disso tão cedo”, completa Deo, que atribui ao esporte a sua saúde impecável.

Para os alunos, o que no início pode parecer estranho, acaba se tornando um ponto positivo. “O bom de ter um professor mais velho é que ele transmite mais experiência, mais sabedoria”, conta o aluno Laer Carneiro, 25 anos. “Acho que é o jiu jitsu que o mantém ativo. Se ele parasse, acho que ele não se manteria tão saudável. Além disso, ele é como um pai para mim”, completa o colega Bernardo Henrique, 21 anos.

Uma pesquisa da Universidade de Vrije, em Amsterdã, Holanda, aponta que a prática de lutas pode ajudar a prevenir fraturas em idosos que sofrem de osteoporose, doença que, só no Brasil, atinge cerca de 10 milhões de pessoas, a maioria com mais de 65 anos. Brenda Groen, uma das responsáveis pelo estudo, explica que as lutas ajudam a limitar o impacto dos tombos. “Cerca de 90% das fraturas do quadril ocorrem como resultado de uma queda. A partir de pesquisas anteriores, sabe-se que as técnicas de quedas das artes marciais ajudam a reduzir a força de impacto no quadril durante uma queda para os lados”, conta ao Correio a pesquisadora holandesa.

Para ela, os idosos podem utilizar os conhecimentos de artes marciais para reduzir os riscos de fraturas no dia a dia. Ela lembra, no entanto, que os estudos ainda são preliminares, e que a fragilidade da estrutura óssea de quem sofre com a doença exige alguns cuidados especiais. “Por razões de segurança, o impacto sobre os ossos não poderia ser diretamente avaliado usando pessoas com osteoporose. Portanto, nós medimos forças de impacto durante exercícios de queda em adultos jovens e comparamos com a base em informações de estudos anteriores sobre o impacto no fêmur que uma pessoa idosa com osteoporose pode suportar”, explica Brenda. “Nós acreditamos que, utilizando protetores de quadril e evitando cair de frente, as lutas podem ser seguras para quem sofre de osteoporose moderada”, completa.

Equilíbrio e força nas artes marciais

Para o personal trainer Gustavo Bergamaschi, que trabalha com alunos idosos, as atividades de luta podem ser boas especialmente para quem já tem o hábito de praticar atividades físicas. “Se a pessoa já pratica outras atividades e tem um corpo preparado, não vejo por que não praticar”, afirma. “As lutas ajudam na manutenção do equilíbrio e no fortalecimento muscular. O único cuidado que eu recomendo é diminuir a intensidade dos treinamentos, para evitar uma luxação ou fratura.”

Ele concorda com a pesquisa holandesa e acredita que o conhecimento dos movimentos de luta pode ser útil para prevenir as fraturas causadas por quedas. “Se a pessoa tem uma vivência maior em lutas, com certeza vai conseguir utilizar esses conhecimentos para evitar que uma queda resulte em algo mais grave”, afirma o professor de educação física.

Para o carateca Gerardo Coelho, 55 anos, a grande vantagem das lutas é que elas acompanham o desenvolvimento de cada um. “Você vai evoluindo de acordo com a sua idade. Em geral, só se chega à faixa preta depois de uma idade mais avançada, já que é preciso muito treino e dedicação”, conta o lutador, que pratica o esporte desde os 14 anos. “Hoje o caratê é tudo para mim. Não consigo imaginar a minha vida longe das lutas”, completa.

Ele também não tem previsão para se afastar do tatame. “Muitos acham que esse tipo de atividade é só para os mais novos, mas eu não concordo. Todo mundo pode praticar e colher os seus benefícios”, afirma Gerardo. “Pelo menos para mim, foi tudo muito natural. Eu fui envelhecendo e a minha técnica foi evoluindo junto”, garante.

E engana-se quem pensa que as lutas só servem para quem começou cedo. O policial federal Ricardo Santos, 46 anos, resolveu retomar no início do ano uma atividade dos tempos de criança. “Quando eu tinha 7 anos entrei nas aulas de jiu jitsu. Agora resolvi voltar e estou vendo que realmente nunca é tarde para começar. É uma terapia. A gente vai para a academia e esquece os problemas. É muito bom”, afirma.

Entrevista com a pesquisadora da Universidade de Vrije, na Holanda, Brenda Groen

O estudo sugere que o ensino de artes marciais para pessoas com oesteoporose pode reduzir o risco de fraturas para eles. Como isso aconteceria?

Noventa por cento das fraturas do quadril ocorrem como resultado de uma queda. A partir de pesquisas anteriores, sabe-se que as técnicas de quedas das artes marciais podem reduzir as forças de impacto no quadril durante uma queda para os lados. A redução do impacto do quadril durante a queda pode reduzir o risco de fraturas de quadril. Por causa do nosso trabalho anterior, sabemos que os idosos são capazes de aprender estas técnicas de queda. Se as pessoas idosas são capazes de aplicar as técnicas de artes marciais queda durante uma queda real de vida, pode reduzir a força do impacto do quadril e, assim, o risco de fratura de quadril.

Houve apenas adultos saudáveis e pacientes em seu estudo. Como é possível dizer que a mesma coisa vai acontecer com idosos?

O objetivo do nosso trabalho recente foi para determinar se o treinamento de artes marciais é seguro para pessoas com osteoporose. Por razões de segurança, isso não poderia ser diretamente avaliado usando pessoas com a doença. Portanto, nós medimos forças de impacto durante a queda em adultos jovens. Estas forças de impacto são comparados com critérios de segurança com base em informações de estudos anteriores sobre quanto impacto do fêmur de pessoa idosa com osteoporose pode suportar.

Embora não possamos ter certeza, pensamos que os nossos critérios de segurança são severos o suficiente para garantir a segurança da queda, inclusive para pessoas com osteoporose leve. A segurança do treinamento foi recentemente confirmada pelos resultados preliminares publicados pela Smulders e colaboradores (2008). Utilizando os critérios de segurança de nosso estudo, 31 pessoas com osteoporose participaram e não houve feridos ou efeitos físicos foram relatados durante ou após o treinamento.

Você acredita que seu estudo pode abrir uma nova possibilidade na prevenção de osteoporose em idosos?

A questão de saber se as artes marciais queda técnicas podem reduzir o risco de fratura do quadril em indivíduos mais velhos na vida diária deve ser abordada em futuras pesquisas. Deve ser investigado se os indivíduos mais velhos será capaz de aplicar as técnicas de artes marciais queda inesperada durante quedas na vida diária e se isso resulta em menos fraturas de quadril.


Fonte: correiobraziliense.com.br, 04/05/010

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