Cérebro de obesos e viciados tem mesmas alterações

Uma diminuição na capacidade de sentir prazer é encontrada tanto em quem come compulsivamente quanto nos dependentes químicos. Esse entrave ao prazer pode ser criado pelo ambiente em que a pessoa vive, segundo o médico Paulo Cunha, especialista em neuropsicologia do Instituto de Psiquiatria do HC de São Paulo.

"O álcool, o tabaco e a comida calórica alteram a química cerebral", diz o especialista.

Cunha afirma que só 15% dos obesos conseguem aderir com sucesso a dietas, um número ainda menor do que o de dependentes que seguem tratamentos contra as drogas.

O menor número de receptores de dopamina (neurotransmissor que causa a sensação de prazer) encontrado nos dependentes químicos também é observado nos cérebros dos obesos.

A atividade do córtex pré-frontal também fica reduzida em quem não controla o que come. Isso leva a uma dificuldade de pensar a longo prazo.

O acesso livre à comida é uma das causas das alterações cerebrais. Uma pesquisa publicada na "Nature" e citada por Cunha mostra que em ratos com livre acesso a alimentos apetitosos há não só um maior ganho de peso, mas a diminuição dos receptores de dopamina.

 

Obeso tem as mesmas alterações num cérebro que um viciado, o que levar a manter um regime por tão pouco tempo O problema maior é que esses condicionamentos são formados por hábitos da vida inteira, e não podem ser mudados de uma hora para outra. "Se você cresce em uma família em que se come muito, isso cria uma memória implícita, que independe da nossa consciência. Não dá para mudar esse hábito só por querer. É preciso aprender rotinas novas por meio da repetição", afirmou o médico.

Estudo publicado no "American Journal of Psychiatry" mostra que os comportamentos dos obesos de dos dependentes químicos em relação aos seus vícios é análogo.

A irritabilidade do obeso durante uma dieta é equivalente à síndrome de abstinência nos viciados em drogas. Costuma haver também um aumento progressivo das porções de comida que saciam o obeso, assim como o viciado aumenta a dose da droga. Ambos começam a limitar sua vida social por causa do vício e cometem os mesmos erros, ainda que saibam as consequências de seus atos.

O que não dá para ser igual é o tratamento, comparou o médico. O dependente químico pode ser orientado a evitar os amigos com quem ele usa drogas e a não tomar um só gole de álcool, nem usar nenhuma substância. "Como o gordinho vai evitar a própria casa, a própria família, as pessoas associadas ao ato de comer? Como vai fazer abstinência de comida?", perguntou Cunha.


Fonte: gazetaweb.globo.com, 12/06/2010

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