Dieta Nutrigenômica, a resposta para emagrecer pode estar em seus genes

Há cerca de dez anos, pesquisadores estudam a interação entre o genoma humano e os nutrientes dos alimentos, com o objetivo de promover a saúde por meio de uma dieta geneticamente personalizada. Esta nova e promissora ciência é denominada Nutrigenômica.

Por causa dela, em um futuro próximo, quando você for consultar um médico ou um nutricionista, deverá apresentar o seu mapa genético. Imagine, então, o quanto precisos e eficazes serão os diagnósticos e os tratamentos propostos por esses especialistas, depois de terem checado, nesse documento, como o seu metabolismo e todo o seu organismo responde, exatamente, a cada nutriente ingerido.

Munidos desses dados, eles poderão prescrever uma dieta exclusiva, para você emagrecer sem muito esforço, ser mais ativo nas tarefas do dia a dia e, de quebra, não desenvolver câncer, diabetes, doenças cardiovasculares… “A boa notícia é que o caminho para chegar ao cardápio perfeito está bem próximo. Isso será uma realidade em alguns anos, graças aos avanços desta ciência”, prevê Lucia Regina Ribeiro, coordenadora da Rede Brasileira de Nutrigenômica e professora do Programa de Pós-Graduação em Patologia da Faculdade de Medicina da Universidade Estadual Paulista (Unesp), em Botucatu, SP.

Afinal, o que é dieta nutrigenômica?

A Nutrigenômica considera os estudos de interação funcional e dos componentes dos alimentos com o genoma, no nível molecular, celular e sistêmico, e tem por finalidade auxiliar a prevenção e o tratamento de doenças, por meio da alimentação. “Essa ciência sugere que todas as soluções para se viver mais e melhor estão em um cardápio alimentar capaz de interferir na atuação dos genes de cada pessoa. Como o genoma de cada indivíduo é único, cada pessoa terá uma dieta personalizada”, indica Lucia. Na prática, os alimentos passariam a ser receitados, literalmente, como remédios. “Porém, para que isso se torne realidade, é preciso, antes, que se entenda melhor de que forma os compostos bioativos dos alimentos interagem com nosso genoma.”

Para isso, é preciso decifrar o código genético de cada indivíduo. Ele contém todas as informações necessárias para a manutenção do corpo humano. Nele, é possível identificar, por exemplo, uma tendência patológica adormecida, mas que pode se manifestar em algum estágio da vida. Essas doenças não estão propriamente descritas em nossos DNAs, como “o gene do diabetes” ou “o gene do câncer de mama”.

“Mas sabemos que o surgimento de algumas doenças crônicas está relacionado à alimentação, ao comportamento e, também, a fatores externos, como uma zona contaminada por algum agente químico”, aponta José Eduardo Dutra de Oliveira, professor de Clínica Médica Especializada em Nutrologia da Faculdade de Medicina de Ribeirão Preto da Universidade de São Paulo (FMRP-USP). O trabalho da Nutrigênomica, então, é o de identificar os genes que, se ativados, poderão desencadear os processos que levam ao desenvolvimento dos mais diversos males. Feito isso, será possível evitar ou anular esses mecanismos pelo simples ato de comer o alimento cuja propriedade atue diretamente no gene controlador.

Luta contra a balança sem precisar recorrer à cirurgia bariátrica

É a singularidade biológica que faz com que as substâncias tenham efeitos variados em cada pessoa. É o caso de indivíduos que fumam por muitos anos, mas nunca desenvolvem um câncer de pulmão. Mesmo motivo que faz com que uma mesma dieta, que funciona bem para alguns, não ajude outros a perder um quilo, sequer. Entre as comprovações já alcançadas por esta ciência está a de que cada ser humano tem um gene específico que regula a forma como o corpo vai queimar calorias.

O caminho para o corpo mais bonito (e saudável) reside na ativação desse mecanismo. “Esse novo horizonte ajudará as pessoas a manterem a forma. Acredito que a dieta personalizada vai colaborar para que pessoas obesas consigam lutar contra a balança, sem precisar recorrerem a uma intervenção agressiva e de risco, como é o caso da cirurgia bariátrica”, avalia Dutra. Segundo o médico, além de uma alimentação ajustada ao perfil genético de cada indivíduo, a Nutrigenômica indicará qual deverá ser o comportamento mais adequado para grupos de pessoas, seja uma pequena comunidade ou uma nação inteira, de acordo com os hábitos alimentares de cada região.

Os nutrientes interagem

O exemplo mais clássico de Nutrigenômica é o acúmulo da enzima fenilalanina no sangue, responsável pelos danos no cérebro em pacientes com fenilcetonúria (PKU). Por isso, os bebês acometidos por essa doença genética são submetidos imediatamente a uma dieta especial, pobre em fenilalanina. “Há 50 anos, não eram os testes genéticos que mostravam isso. Mas, hoje, a doença e a prescrição dietética se encaixam perfeitamente na Nutrigenômica”, destaca Lucia. De acordo com ela, cerca de mil genes humanos ligados a doenças já foram identificados, assim como os nutrientes que têm ação sobre eles.

Quem está estudando a Nutrigenômica?

Nos EUA, em alguns países da europa, na austrália e no Canadá, as pesquisas em nutrigenômica estão avançadas. nessas nações, alguns pacientes com predisposição genética já seguem dietas específicas para agirem sobre os genes que predispõem ao desenvolvimento de doenças cardiovasculares, diabetes do tipo 2 e alguns tipos de câncer. Em outubro de 2006, a Food and Drug Administration (FDA), nos Estados Unidos, criou  uma divisão especial para as pesquisas na área. “Este evento representou um marco para a área de nutrigenômica, considerando que o governo norte-americano não somente reconhece a importância da personalização, mas, também, porque inclui esse tipo de nutrição como uma medicina. No Brasil, a comunidade científica ainda não recebe verbas suficientes para patrocinar as pesquisas necessáriots para o desenvolvimento desta ciência. Assim, no país, os estudos que realmente tratam de nutrigenômica consistem de poucos e pequenos projetos, ainda sem resultados significativos”, revela lucia Regina Ribeiro.

O que a ciência já sabe

Segundo uma pesquisa norte-americana, variações no gene APOA1 (apolipoproteína A1) afetam, de forma diferente, os níveis de colesterol bom (o HDL). “Até então, os cientistas acreditavam que toda pessoa que adotasse uma dieta rica em ácidos graxos poli-insaturados (ômega-3 e ômega-6), conseguiria aumentar as taxas do HDL e, consequentemente, afastar os riscos de doenças cardiovasculares. Agora, já se sabe que não é bem assim. Algumas mulheres com determinada variação nesse gene podem ter uma resposta oposta ao consumo dos nutrientes. E baixar os níveis do bom colesterol não faz bem à saúde”, fala a cientista.

Os pesquisadores também descobriram quais são os genes que predispõem o organismo a consumir mais calorias, quais são os que influenciam as preferências alimentares por cafeína e doces, por exemplo, e quais favorecem as infecções no tecido adiposo – uma das maiores causas da obesidade. “Assim que conhecermos todos os componentes alimentares que interagem com esses genes, teremos um caminho para controlar o apetite, a absorção de nutrientes, entre outros aspectos envolvidos na digestão”, diz Daisy Maria Favero Salvadori, doutora em Genética pela Unesp.

A Nutrição atual procura balancear os nutrientes nas dietas, respeitando, quando possível, as preferências e os hábitos alimentares de cada pessoa. “Com a Nutrigenômica, tudo isso muda, pois os profissionais terão que personalizar ao máximo a alimentação, como se estivessem montando um quebra-cabeça, com peças que se encaixam e outras para descartar”, comenta a nutricionista Patricia Soares.

Próximos do prato ideal para cada organismo?

Já existem algumas empresas que oferecem, via internet, serviços de genômica preditiva, estabelecendo relações entre o padrão genético individual e o estilo de vida, incluindo a atividade física e a alimentação. “No entanto, considerando o estágio de desenvolvimento da área, e a necessidade do acúmulo de mais conhecimentos científicos, somos da opinião que a disponibilização de tais serviços é, ainda, prematura”, fala Lucia.

Uma série de programas colaborativos, focando a interação entre genes e nutrientes, foi iniciada, nos últimos três anos. Os pesquisadores em Nutrigenômica, seja individualmente, em grandes centros de pesquisa, ou em programas multi-institucionais, reconhecem a necessidade do desenvolvimento de novas práticas, fomentando colaborações internacionais e o uso comum de banco de dados. “Baseado na concretização destas expectativas, surge o conceito de ‘nutrição inteligente’, que promete revolucionar não só a Nutrição, mas todas as áreas ligadas às ciências da saúde. Hoje, a ciência praticamente duplica o conhecimento adquirido em um ano. Acredito que, em dez anos, a Nutrigenômica será uma realidade na vida das pessoas”, conclui Daisy.


Fonte: Revista Viva Saúde, Ivan Alves

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