Hepatite pode tornar-se doença crônica, causando cirrose ou câncer no fígado

A hepatite é uma doença viral que provoca inflamação do fígado. Além dos tipos A, B e C, existem outros quatro – D, E, F e G – que podem causar a doença, mas alguns são pouco conhecidos e ainda não estão em circulação no Brasil. Entre os mais comuns estão os tipos A, B e C.

Segundo o médico infectologista Joaquim Celso Guimarães, a hepatite A é a mais conhecida da população. “A transmissão é fecal-oral, por meio da ingestão de alimentos ou água contaminados”, explica. A doença é mais frequente em crianças e jovens e, normalmente, tem uma evolução benigna, mas em mulheres grávidas o quadro pode se agravar e até levar à morte. Os sintomas são cansaço, tontura, enjoo, vômitos, febre, dor abdominal, pele e olhos amarelados, urina escura e fezes claras.

O tratamento é sintomático. “Uso de medicamentos para aliviar os sintomas e repouso”, esclarece Guimarães. Saneamento básico, cuidados com a higiene, lavagem das mãos e alimentos são medidas que podem evitar a contaminação pelo vírus.

A vacina contra hepatite A está disponível apenas em clínicas particulares. Na rede pública, apenas casos especiais têm direito à imunização contra o vírus do tipo A. A vacinação é feita no Centro de Referência de Imunobiológicos Especiais (Crie), que fica no Hospital de Clínicas (HC) da UEL.

Os tipos B e C provocam quadros mais graves da doença e são predominantes na população adulta. O vírus tipo B pode ser transmitido por vias sanguínea e sexual. Por isso, as formas de prevenção são o uso de preservativo, não compartilhamento de seringas, agulhas e objetos cortantes, e controle rigoroso dos bancos de sangue para transfusão. A doença é assintomática e a única forma de descobrir o vírus é realizando exames sorológicos.

“Cerca de 10% das pessoas contaminadas pelo vírus B não produzem anticorpos e podem se transformar em portadores crônicos”, revela o infectologista. O paciente pode ficar com o vírus alojado no corpo durante anos até que ele comece a atingir o fígado. “Depois de 20 anos ou mais, o portador pode desenvolver uma cirrose ou câncer”.

A principal forma de transmissão do vírus da hepatite C é a transfusão sanguínea. “Também é possível ser contaminado pelo uso de drogas ilícitas, mesmo as inalatórias”, aponta o médico. Segundo ele, ainda não se conhecem todas as formas de transmissão e 80% das pessoas que entram em contato com este vírus tornam-se portadores crônicos. “Não existe vacina para o tipo C e o diagnóstico é dificultado pela ausência dos sintomas”, informa.

É preciso ter disciplina para obter sucesso no tratamento da hepatite

O infectologista Joaquim Celso Guimarães afirma que o tratamento das hepatites B e C pode durar, no mínimo, dois anos. “É preciso avaliar as condições do paciente para iniciar a medicação, que é fornecida pelo governo”. Os medicamentos mais utilizados são a injeção de interferon e comprimidos de ribavirina. Além de agressivo e cheio de efeitos colaterais, o tratamento não garante a cura da doença.

Um paciente de 53 anos de Guimarães, que não quis ser identificado, descobriu o vírus da hepatite C por acaso. “Fui doar sangue em 2007 e recebi o diagnóstico”, lembra. Ele, que nunca apresentou sintomas da doença, desconfia ter sido contaminado em uma cirurgia ou no dentista. “O tratamento é muito difícil. É como se fosse uma quimioterapia. Causa forte depressão, dor no corpo, febre, cansaço”, conta.

A prática de esportes, alimentação balanceada e disciplina foram essenciais para o sucesso do tratamento, que terminou em julho de 2008. “Os primeiros 90 dias são os mais difíceis. Tem que ter persistência e força de vontade”, aconselha. Para ele, é importante fazer um acompanhamento psicológico e essencial seguir o tratamento até o fim.

Outro portador da hepatite C, um administrador de empresas de 27 anos que também não quis se identificar, não teve a mesma sorte. Ele é hemofílico e contraiu hepatite C por transfusão de sangue. Até hoje nunca teve sintomas da doença. “Descobri o vírus há mais de 15 anos, fazendo exames de rotina”, conta. Apesar de tomar a medicação durante um ano, não conseguiu curar-se da doença. “Eu vou levando. Enquanto o vírus não se manifestar, não tem o que fazer.” Para controlar a doença, ele faz acompanhamento médico e exames periódicos de carga viral.

Transfusão não é 100% segura

Mesmo com todos os cuidados e procedimentos de segurança adotados pelos bancos de sangue, o hematologista e hemoterapeuta Luis Gabriel Fernandez Turkowski afirma não existir garantia total de que o receptor não está recebendo sangue contaminado pelo vírus da hepatite. “Isso acontece porque o organismo pode demorar um tempo até produzir determinada quantidade de anticorpos que pode ser visualizada nos exames sorológicos”, justifica.

Segundo o médico, em países menos desenvolvidos, a taxa de transmissão do vírus tipo C é de uma para cada 1,3 mil bolsas de sangue. “Mas existem países com taxas bem menores, com uma transmissão a cada 6 mil unidades.” Já a contaminação pelo vírus do tipo B é bem menor. “Uma a cada 200 mil”, informa Turkowski. Isso porque a hepatite C é uma doença nova, silenciosa e ainda desconhecida da maioria da população.

Mas Turkowski enfatiza que quem tem ou teve o vírus da hepatite é impedido de doar sangue para proteger os receptores de uma possível contaminação. “Doar sangue é um ato altruísta e de responsabilidade”, reforça.

Vacinas na rede pública

A vacina contra hepatite B está disponível em todas as Unidades Básicas de Saúde (UBS) desde o nascimento até os 19 anos de idade. “Acima dessa faixa etária, pessoas consideradas mais vulneráveis à doença também podem ser contempladas, como profissionais de saúde, manicures e podólogos, usuários de drogas injetáveis e inaláveis, pessoas reclusas, profissionais do sexo, homens que fazem sexo com homens, bombeiros, entre outras”, informa a enfermeira da Seção de Vigilância em Saúde da 17ª Regional de Saúde, Angela Pacheco.

Gestantes devem ser vacinadas a partir do segundo trimestre de gravidez para prevenir a própria infecção e, consequentemente, a do bebê. “Doadores de sangue também devem se proteger para garantir a frequência da doação”, alerta Angela. Portadores de hepatite que precisam de atendimento de média complexidade são encaminhados ao Cismepar e Hospital de Clínicas da UEL.

Cartilha orienta manicures

Uma pesquisa feita com manicures do estado de São Paulo revelou que 20% delas são portadoras de hepatite B. Entre 100 entrevistadas em salões de beleza das classes alta e de baixa renda, 74% admitiram que não faziam a higienização das mãos entre uma cliente e outra, não estavam vacinadas contra a doença e 72% desconheciam as formas de contágio. Apenas 5% das entrevistadas utilizavam luvas descartáveis.

Recentemente, o Ministério da Saúde incluiu manicures e pedicures nos grupos prioritários para vacinação contra hepatite B e lançou uma cartilha com orientações sobre prevenção da doença. A cartilha também tem como objetivo incentivar as clientes a levarem o próprio material aos salões de beleza, com alicate, palito de laranjeira, lixa, toalha, creme, esmalte, algodão e acetona.

Segundo o ministério, 90% dos adultos ficam imunizados após receber três doses da vacina contra hepatite B.


Fonte: portal.rpc.com.br, Amanda de Santa, 19/04/2010

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