Médico, laboratório e remédio: uma relação para lá de promíscua ?

Se você ao procurar um advogado para entrar com uma causa contra uma outra pessoa descobrisse que ela pagou cerca de 56,7% dos cursos e estudos do advogado, além de ter patrocinado artigos escritos por ele, você acreditará que o advogado defenderia com isenção sua causa ? Provavelmente não, é o que a maioria das pessoas dizem.

Pois bem, uma situação parecida parece estar ocorrendo com os médicos brasileiros devido às suas relações com os grandes laboratórios farmacêuticos. Ou você acha que os grandes laboratórios colocam tantos representantes indo atrás de médicos, carregando suas malas de amostras grátis em carrinhos, sem ter nenhum interesse?

E essa relação próxima entre os médicos e os laboratórios farmacêuticos afeta, é claro, o seu bolso ! O problema surge na hora de elaborar as diretrizes clínicas.

Diretriz clínica é o nome que se dá as orientações que padronizam como um médico irá agir em relação a uma determinada doença. As diretrizes são feitas por entidades profissionais e definem qual a taxa de colesterol ou o nível de pressão arterial aceitáveis e quais as classes de remédios que devem ser usadas no tratamento dos pacientes, por exemplo. E são exatamente os médicos dessas entidades profissionais os mais “cativados” pelos grandes laboratórios.

Um exemplo da relação “próxima” entre médico e laboratórios…

A repórter Cláudia Collucci, da Folha de São Paulo, em 03/02/2011, fez uma pesquisa sobre a relação entre os médicos que elaboram as diretrizes clínicas e relação deles com os laboratórios:

Hipertensão

Dos 111 profissionais que fizeram o documento sobre hipertensão, 63 (56,7%) declararam que, nos últimos três anos, fizeram estudos, receberam ajuda, deram palestras ou escreveram textos científicos patrocinados por laboratórios. Dois deles são sócios de laboratórios.

Será que há isenção ao prescrever um tratamento e/ou medicamento ?

Climatério e doenças cardiovasculares

Dos 33 médicos que a assinam, 16 (48,5%) são patrocinados pela indústria. Também dois têm ações de laboratórios.

Isenção?

Disfunção erétil (insuficiência sexual)

Todos os cinco médicos responsáveis pela diretriz tem relacionamento próximo com laboratórios…

Há isenção?

A relação próxima entre médicos e a indústria farmacêutica pode levantar suspeita de parcialidade até mesmo em pessoas de boa fé

A posição do CFM (Conselho Federal de medicina) e da AMB (Associação Médica Brasileira) sobre a relação “próxima” entre médicos e laboratórios

O CFM reconhece a situação “conflituosa”, mas diz que não há hoje nenhuma restrição que médicos ligados a indústria participem de consensos.

“Não tínhamos pensado nisso, mas é preciso rever essa situação. É difícil adotar diretrizes com pessoas comprometidas com a indústria. Pode perder a credibilidade”, afirma Roberto D’Ávila, presidente do CFM.

 

O médico Wanderley Marques Bernardo, coordenador do “Projeto Diretrizes”, da AMB (Associação Médica Brasileira), afirma que a diretriz segue uma metodologia rígida e que é baseada em fortes evidências científicas. Segundo ele, há um grupo isento que faz uma revisão final.

“Se houver ainda algum problema ou interesse, seja ele deliberado ou não, a gente corrige”, diz ele.

A relação “próxima” entre médico e laboratório: como ela afeta seu bolso

Devemos respeitar os médicos pois a grande maioria são pessoas sérias e preocupadas em dar o melhor tratamento possível aos seus pacientes.

Mas por outro lado, o percentual de médicos que elaboram diretrizes clínicas e que tiveram despesas pagas por grandes laboratórios farmacêuticos exige que esse assunto não fique restrito a ótica apenas dos médicos os dos conselhos. Afinal, quem paga a conta dos tratamentos indicados por essa diretrizes, é a população seja, diretamente nas farmácias comprando remédios, ou através de impostos.

E também sabemos que que se uma diretriz orientar o uso de um determinado medicamento, de um determinado laboratório, isso pode significar, bilhões em receitas para ele.

Em um assunto como esses, o tratamento de pacientes, é necessário o máximo de isenção mas como vimos os percentuais podem criar suspeitas de parcialidade até mesmo em pessoas de boa-fé.

One thought on “Médico, laboratório e remédio: uma relação para lá de promíscua ?

  1. Onde trabalho, vez por outra alguns laboratórios promovem eventos e vão muitos médicos até lá. Foi a partir dai que começei a pretar atenção nessa relação médico & laboratório. Quando eu for comprar algum tipo de remédio sempre procurarei pelo genérico ou por um mais barato de outro laboratório. A não ser que os labóratórios começem a convencer os donos de farmácia a comprar só o seu remédio. Ai já vira outra coisa.

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