Medicina ortomolecular, um foco de diagnósticos errados, tratamentos perigosos – cuidado

A chamada medicina ortomolecular é uma especialidade médica que está na moda – tão na moda que o Conselho Federal de Medicina emitiu uma regulamentação pra evitar abusos e práticas indevidas. Mas, como nossa reportagem vai mostrar, o que ainda se vê em muitos consultórios é de assustar.

Nas quatro clínicas visitadas, a produtora do Fantástico contou uma história parecida: “Desânimo, queda de cabelo, problema de memória, dormindo mal, eu tive depressão”, Sintomas iguais, diagnósticos diferentes.

“Isso pode ser ou deficiência de vitamina C ou de taurina, que é um aminoácido que está presente na carne”, disse um profissional em Porto Alegre. “Isso daí é deficiência de iodo”, atestou outro em São Paulo.

“Provável processo degenerativo crônico em andamento”, comentou um médico no Rio de Janeiro. “Isto indica uma leve sobrecargazinha nos rins e no fígado”, disse uma terapeuta também no Rio.

Para chegar a essas conclusões, um mesmo exame: o da gota de sangue. Só que o teste não tem comprovação científica e é vetado pelo Conselho Federal de Medicina (CFM). “Isso aqui é um cristal de colesterol com uma cândida em cima”, aponta um terapeuta no Rio.

O Fantástico mostrou as imagens para um especialista em doenças do sangue. “Ele pode chamar aquilo do que ele quiser, mas não corresponde à infecção por cândida. Isso não é visualizado dessa maneira através de um exame como esse, muito menos em cima de um cristal de colesterol. As pessoas que têm cândida circulante no sangue estão gravemente doentes”, explica o hematologista Daniel Tabak.

“Está vendo que tem umas bolinhas aqui dentro das hemácias? Chama micoplasma. É um fungo bem comum de aparecer. Ele aumenta muito a vontade de comer doce”, diz a terapeuta em Porto Alegre.

“Micoplasma, na verdade, não é um fungo. É uma bactéria, e ela não pode ser visualizada dessa maneira. Sem dúvida nenhuma, não existe nenhuma relação entre o aparecimento de micoplasma e o desejo de comer doce”, rebate o hematologista Daniel Tabak.

Em outro consultório, em São Paulo, onde quem atende é uma “terapeuta” formada em administração de empresas, surge uma expressão chave no mundo ortomolecular: radicais livres. “Radical livre são esses buracos brancos”, diz ela. O Fantástico mostrou as cenas para o cardiologista Francisco Laurindo, que estuda radicais livres no Instituto do Coração (Incor), em São Paulo.

“A uma distância é um pouco difícil e com essa resolução é difícil, mas eu posso dizer que os pontos brancos muito provavelmente correspondem a reflexos. Tem uma luz debaixo do microscópio. A luz reflete na superfície da célula e aquilo tem uma certa luminosidade, como se fosse um espelho. Ele reflete e promove esses reflexos brancos”, explica o cardiologista Francisco Laurindo.

Radicais livres – que, como explicou o cientista Francisco Laurindo, não têm nada a ver com reflexos numa lâmina – são fragmentos invisíveis de moléculas. Eles são produzidos na respiração e circulam naturalmente pelo corpo. São muito instáveis. Precisam reagir com alguma coisa para sossegar.

”Ao reagir, eles causam danos às células, desencadeando doenças, causando o próprio envelhecimento e a morte das células”, explica o professor de bioquímica da USP e da Unifesp, Etelvino Bechara.

Estima-se que existam, no Brasil, seis mil médicos adeptos da medicina ortomolecular ou biomolecular, como ela também é conhecida. Essa medicina, que tem como foco o combate aos radicais livres, foi criada por um químico.

“Ortomolecular foi fundada por um grande pesquisador, duas vezes prêmio Nobel, doutor Linus Pauling”, conta José de Felippe Júnior, presidente da presidente da Sociedade Brasileira de Medicina Biomolecular.

Isso foi nos anos 1960, mas a medicina ortomolecular só chegaria com força ao Brasil quase duas décadas depois, defendendo que um organismo saudável é um organismo quimicamente equilibrado e que esse equilíbrio químico poderia ser atingido usando-se altas doses de vitaminas. As vitaminas, também chamadas de antioxidantes, atacam os radicais livres e, portanto, poderiam retardar o envelhecimento. Porém…

“Existe muita controvérsia sobre o fato de se a ingestão de doses altas desses antioxidantes, de fato, vai prevenir uma doença e vai ajudar você a controlar seu envelhecimento ou seu estado de saúde”, afirma o professor de bioquímica Etelvino Bechara.

Ou seja, não existe uma fórmula mágica para bloquear os danos causados pelos radicais livres. Radicais, é bom lembrar, que são invisíveis e não aparecem em microscópios simples de consultórios.

“Você está vendo esse branco aqui? Ele está fechando marronzinho. É o seu organismo que está se recuperando, tentando fechar o radical livre”, diz uma atendente ortomolecular em São Paulo.

“Obviamente ela não pode ver os radicais livres, muito menos os radicais se fechando. Não consigo entender o que é radical se fechando”, rebate o hematologista Daniel Tabak.

O Conselho Federal de Medicina reconhece a medicina ortomolecular, mas faz ressalvas. “É uma prática que tem uma ação terapêutica muito eficaz e com valor cientifico em determinadas circunstâncias e parâmetros bem estabelecidos. Mas não dentro dessa busca de envelhecimento, de antienvelhecimento, como hoje é proposto de maneira muito ampla dentro da sociedade brasileira”, afirma Carlos Vital Correa Lima, vice-presidente do Conselho Federal de Medicina.

No início deste mês, entraram em vigor novas regras do Conselho para a medicina ortomolecular. Além de proibir o exame da gota de sangue, elas limitam o uso de um outro teste típico dessa modalidade: o exame do fio de cabelo.

“Se houver necessidade, a gente vai fazer o exame do fio de cabelo e mandar para os Estados Unidos. A gente pega um pouquinho de fio de cabelo e manda para os Estados Unidos. Eles vêem todos os minerais que estão deficientes, todos”, disse um profissional ortomolecular em São Paulo.

“O exame do fio capilar e o exame do dedo, da gota espessa, não devem ser feitos. Não têm valor científico”, afirma Carlos Vital Correa Lima, vice-presidente do Conselho Federal de Medicina.
As promessas de combate ao envelhecimento, de mais disposição física e até de emagrecer atraíram muita gente.

“Está na moda. Estou fazendo dieta ortomolecular. Já fiz 80 vezes e já furei todos os dedos. Você bota lá e eles dizem que você está com deficiência disso ou daquilo”, diz a cantora Preta Gil.

“Eu já utilizei a medicina ortomolecular, inclusive quando isso virou uma febre. Até hoje eu tomo reposição de vitaminas. Tomo minha vitamina C e ferro”, comenta a cantora Ivete Sangalo.

“Vitamina A, zinco, ômega 3, eu vou associar isso aqui ao resto e você deve ficar boa”, diz um terapeuta ortomolecular no Rio de Janeiro. “É simples assim?”, pergunta a produtora. “Vamos saber”, diz, rindo, o terapeuta.

A nova resolução do Conselho Federal de Medicina também determina: altas doses de vitaminas e minerais, só se o paciente tiver falta dessas substâncias no organismo. Fora isso, basta se alimentar direito.

“Essa é a mensagem que, na verdade, tem sido transmitida pela comunidade médica e pela comunidade de químicos e bioquímicos que trabalham com radicais livres: consumam legumes, frutas e verduras”, diz o professor Etelvino Bechara.

Mas em um consultório ortomolecular em São Paulo… “É um lítio, zinco, cobre, cobalto. É para tudo”, diz a atendente.

“Não há evidência científica que o cobalto, o chumbo e outros minerais possam ter ação prática no rejuvenescimento ou mesmo no tratamento das doenças crônicas”, afirma Carlos Vital Correa Lima, vice-presidente do Conselho Federal de Medicina.

Nossa produtora não saiu dos consultórios só com receitas de vitaminas e minerais. Recebeu também a indicação de procaína, um anestésico.

“Se você quiser a procaína, que no seu caso é indicado, isso é bem rápido, porque a proteína é bem antioxidante”, diz a terapeuta na capital gaúcha.

O Fantástico procurou o dono do consultório onde uma bióloga indicou a procaína. Ele é dono de cinco clínicas.

"A procaína nós usamos dentro daquilo que se é permitido. Por exemplo, a procaína inibe uma enzima que provoca aquelas depressões leves. Essa é uma das funções que nós usamos aqui na procainoterapia.E também como antioxidante", conta o médico Eduardo Gomes de Azevedo.

“Aplicação de procaína como uma medicação antioxidante e de rejuvenescimento não está permitida, não tem valor científico”, diz Carlos Vital Correa Lima, vice-presidente do Conselho Federal de Medicina.

“O médico vai entrar com uma terapia antioxidante para frear essa produção acelerada de radical livre”, diz uma terapeuta ortomolecular no Rio de Janeiro.

Em uma clínica no Rio, outra indicação: soro com água oxigenada na veia para desentupir veias e artérias.

“A gente faz gota a gota o gotejamento do soro na veia. O peróxido de hidrogênio vai entrando e vai limpando tudo. Traduzindo, água oxigenada, água oxigenada. Aí você pode reparar que, quando acabar a primeira, você olha no espelho, ‘tu’ vai ver que você ficou mais branca”, diz o atendente.

“[Água oxigenada] É para uso externo, não é para uso interno. Isso só na imaginação desse indivíduo”, afirmou o hematologista Daniel Tabak.

Foi nessa mesma que o médico, dono de quatro clínicas em dois estados, atribuiu os sintomas de nossa produtora a problemas espirituais.

Médico: A sua mãe ou a sua avó materna ou seu marido, ou você, frequentaram espiritismo.
Produtora: O senhor está vendo no meu sangue que eu tive contato com espiritismo ou a minha família?
Médico: Isso eu não descobri em livro, não. Isso é uma descoberta minha.
Produtora: Mas o que o espiritismo tem a ver com meu sangue e com o processo degenerativo?
Médico: Só dá isso nesses casos. Essas coisas só dão nesse caso. Tem duas cores que você não pode usar: nem marrom nem preto. Você vai dizer: ‘Pô, além de médico, o cara é maluco!’. Mas preto e marrom são a cor do ocultimo.

Além de ouvir essas coisas, nossa produtora-paciente saiu dessa consulta com receita para vários remédios – todos vendidos na própria clínica. “R$ 3,1 mil para o tratamento por mês. Tem que fazer dois meses em média”, disse o médico.

“Não pode oferecer, não pode comercializar produtos, medicamentos em seu consultório. Configura-se como prática de farmácia e isso é vedado pelo código de ética e por lei”, afirma Carlos Vital Correa Lima, vice-presidente do Conselho Federal de Medicina.

O Fantástico voltou a procurar o doutor Carlos Carvalho. Ele disse que vai mudar. “Ou eu cumpro o que o conselho manda ou eu vou perder o meu diploma. Então, eu vou cumprir. Mesmo discordando, eu vou cumprir”, afirmou.

A venda de remédios no consultório também é praticada pela "terapeuta" de São Paulo – aquela que não formada em medicina.

“Eu sou terapeuta ortomolecular. Estudei cinco anos, sou professora de ortomolecular. O médico de ortomolecular ele só tem CRM. Sua terapia para quatro meses fica em R$ 1,9 mil. Você pode pagar em quatro vezes. Aí eu vou fornecer o que você precisa. Não vende em farmácia”, disse a terapeuta.

O Fantástico levou esses remédios para um laboratório credenciado pela Agência Nacional de Vigilância Sanitária (Anvisa) para fazer um teste crucial: será que esses produtos, de fato, contêm aquilo que o rótulo informa? E mais: mesmo que eles tenham o que está no rótulo, será que essas substâncias trazem algum efeito benéfico para as pessoas?

Alguns produtos tinham uma descrição tão genérica no rótulo que nem foi possível testá-los. Já um complexo de vitaminas foi examinado. Ele continha o que o rótulo dizia: milionésimos de gramas de vitaminas, que é a dose diária recomendada dessas substâncias.

“Se a pessoa se alimenta bem, se alimenta de acordo, não haveria necessidade. Não há nenhuma evidência que este tipo de prescrição cause benefício terapêutico, cause um bem para a pessoa”, afirma o médico responsável pelo laboratório, Gilberto de Nucci.

Procurada pelo Fantástico, a terapeuta Marina Pieroni disse apenas o seguinte: “Eu estou fazendo uma coisa totalmente legal, não estou fazendo nada ilegal. Não tem por que eu ficar dando entrevista”.

“Ortomolecular chegou ao Brasil um pouco com o pé quebrado. Fizeram propagandas indevidas. Por isso, eu uso biomolecular. Agora, eu respeito a ortomolecular do início, do Linus Pauling, uma molécula certa no lugar certo”, diz José de Felippe Júnior, presidente da presidente da Sociedade Brasileira de Medicina Biomolecular.

“Como em qualquer comunidade, existem indivíduos sérios que têm uma vontade de ajudar o paciente e que acreditam profundamente naquilo que estão fazendo, mesmo no caso da medicina ortomolecular. E há o outro extremo, que são casos praticamente criminais de indivíduos que eventualmente nem médicos são, que estão aplicando procedimentos sem a menor base”, afirma o cardiologista Francisco Laurindo, que estuda radicais livres no Instituto do Coração (Incor), em São Paulo.


Fonte: Fantástico,

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