Psiquiatria tornou-se dependente demais de drogas psicoativas

Hoje quando pensamos em tratamento psiquiátrico quase sempre nos vem a cabeça paciente que tomam medicamentos. Isso nem sempre foi assim e a fortes evidências que o uso praticamente indiscriminado de drogas psiquiátrica resulta de uma combinação perversa envolvendo vaidade profissional e o pesado apoio dos grandes laboratórios farmacêuticos ao uso dessas substâncias.

Antes do desenvolvimento das drogas psiquiátricas, sendo que as  pioneiras na verdade foram derivadas de remédios para tratar infecções, os psiquiatras tinham pouco interesse pela química ou outros aspectos físicos do cérebro. Na verdade, aceitavam a visão freudiana de que a doença mental tinha suas raízes em conflitos inconscientes, geralmente com origem na infância, que afetavam a mente como se ela fosse separada do cérebro.

Quando as drogas psicoativas surgiram, houve um período de otimismo na profissão psiquiátrica, mas na década de 70 o otimismo deu lugar a uma sensação de ameaça:

Não era possível esconder os graves efeitos colaterais dos medicamentos. Também havia a crescente concorrência de psicólogos e terapeutas. Por fim dentro da própria Psiquiatria havia divisões: alguns psiquiatras seguiam o modelo biológicos, outros o modelo freudiano e alguns (poucos) viam a doença mental como uma resposta sadia a um mundo insano. Para agravar a sensação de ameaça, os psiquiatras eram considerados uma espécie de parentes pobres na Medicina: mesmo com suas novas drogas, eram vistos como menos científicos do que os outros especialistas, e sua renda era geralmente mais baixa.

A resposta a tudo isso começou com a declaração do diretor médico da Associação Americana de Psiquiatria, Melvin Sabshin em 1977: “Devemos apoiar fortemente um esforço vigoroso para remedicalizar a psiquiatria.” Da declaração passou a prática, lançando uma campanha de relações públicas para isso. Como os psiquiatras cursam Medicina, eles tem autoridade legal para  receitar medicamentos o que psicólogos e terapeutas não podem fazer.

Quando passou a enfatizar o tratamento por medicamentos, a Psiquiatria "tomou ares mais científicos" e além disso tornou-se um dos ramos favoritos da indústria farmacêutica.

Hoje a Psiquiatria é um dos ramos da Medicina que mais dão lucro a indústria farmacêutica a ponto de dizerem que são "gêmeos siameses"

Depois, houve uma grande mudança no Manual Diagnóstico e Estatístico de Transtornos Mentais, o DSM, que estabelece os critérios de diagnóstico para todos os transtornos mentais. As duas primeiras edições, publicadas em 1952 e 1968, refletiam a visão freudiana da doença mental, e eram pouco conhecidas fora da profissão. Robert Spitzer o responsável pela terceira edição decidiu fazer da terceira edição, o DSM-III, algo bem diferente. Ele prometeu que o Manual seria “uma defesa do modelo médico aplicado a problemas psiquiátricos”.

Quando foi publicado, em 1980, o DSM-III continha 265 diagnósticos (acima dos 182 da edição anterior) e logo teve um uso quase universal: não apenas por parte de psiquiatras, mas também por companhias de seguros, hospitais, tribunais, prisões, escolas, pesquisadores, agências governamentais e médicos de todas as especialidades. Seu principal objetivo era trazer coerência (normalmente chamada de “confiabilidade”) ao diagnóstico psiquiátrico. Ou seja, garantir que os psiquiatras que viam o mesmo paciente concordassem com o diagnóstico. Para isso, cada diagnóstico era definido por uma lista de sintomas, com limites numéricos. Por exemplo, ter pelo menos cinco de nove sintomas determinados garantia ao paciente um diagnóstico definitivo de episódio depressivo dentro da ampla categoria de “transtornos do humor”.

O DSM se tornou a bíblia da psiquiatria e, tal como a Bíblia, dependia muito de algo parecido com a fé: não há nele citações de estudos científicos para sustentar suas decisões. É uma omissão espantosa, porque em todas as publicações médicas, sejam revistas ou livros didáticos, as declarações de fatos devem estar apoiadas em referências comprováveis. (Há quatro “livros de consulta” separados para a edição atual do DSM, que apresentam a razão para algumas decisões, junto com referências, mas isso não é a mesma coisa que referências específicas.)

Os laboratórios farmacêuticos passaram a dar toda a atenção e generosidade aos psiquiatras, tanto individual como coletivamente, direta e indiretamente. Choveram presentes e amostras grátis, contratos de consultores e palestrantes, refeições, ajuda para participar de conferências. Quando os estados de Minnesota e Vermont implantaram “leis de transparência”, que exigem que os laboratórios informem todos os pagamentos a médicos, descobriu-se que os psiquiatras recebiam mais dinheiro do que os médicos de qualquer outra especialidade.

Os laboratórios buscam conquistar psiquiatras de centros médicos universitários de prestígio. Chamados pela indústria de “líderes-chave de opinião”, eles são os profissionais que, por meio do que escrevem e ensinam, influenciam o tratamento das doenças mentais. Eles também publicam grande parte da pesquisa clínica sobre medicamentos e, o que é fundamental, determinam o conteúdo do DSM. Em certo sentido, eles são a melhor equipe de vendas que a indústria poderia ter e valem cada centavo gasto com eles. Dos 170 colaboradores da versão atual do DSM, dos quais quase todos poderiam ser descritos como líderes-chave, 95 tinham vínculos financeiros com laboratórios farmacêuticos, inclusive todos os colaboradores das seções sobre transtornos de humor e esquizofrenia.

A quinta revisão do DSM começou a ser feita em 1999 e está programado para ser publicado em 2013. os limites dos diagnósticos serão ampliados para incluir os precursores dos transtornos, tais como “síndrome do risco de psicose” e “transtorno cognitivo leve” (possível início do mal de Alzheimer). O termo “espectro” é usado para ampliar categorias, e temos,por exemplo, “espectro de transtorno obsessivo-compulsivo”, “transtorno do espectro da esquizofrenia” e “transtorno do espectro do autismo”. E há propostas para a inclusão de distúrbios totalmente novos, como “transtorno hipersexual”, “síndrome das pernas inquietas” e “compulsão alimentar”. Até mesmo Allen Frances, presidente da força-tarefa do atual DSM-IV, escreveu que a próxima edição do Manual será uma “mina de ouro para a indústria farmacêutica”.

 

Porque a Psiquiatria é a "queridinha" dos laboratórios farmacêuticos ?

Os laboratórios farmacêuticos, apesar de lidarem com saúde, visam o lucro tanto quanto qualquer outra empresa. Se eles se aproximaram dos psiquiatras foi porque perceberam que havia muito lucro a ser ganho com esse ramo da Medicina. E isso ocorre porque os diagnósticos psiquiátricos são subjetivos e há poucas razões racionais para a escolha de um tratamento em relação ao outro.

Ao contrário das enfermidades tratadas pela maioria dos outros ramos da medicina, não há sinais ou exames objetivos para as doenças mentais – nenhum dado de laboratório ou descoberta por ressonância magnética – e as fronteiras entre o normal e o anormal são muitas vezes pouco claras. Isso torna possível expandir as fronteiras do diagnóstico ou até mesmo criar novas diagnoses, de uma forma que seria impossível, por exemplo, em um campo como a cardiologia. E as empresas farmacêuticas têm todo o interesse em induzir os psiquiatras a fazer exatamente isso.

Um outro lado não menos chocante para o predomínio do uso de medicamentos na atual Psiquiatria é o lado financeiro relacionados aos psiquiatras: atender pacientes receitando drogas permite ganhar mais dinheiro do que atendê-los com terapia de conversa: enquanto conversando é possível atender a somente um paciente por hora, receitando medicamentos esse número pode chegar a três. E tal como no Brasil, os planos de saúde nos Estados Unidos não são conhecidos por pagar bem aos médicos conveniados…

O resultado de tudo isso é que Um paciente típico, diz ele, pode estar tomando Celexa para depressão, Ativan para ansiedade, Ambien para insônia, Provigil para fadiga (um efeito colateral do Celexa) e Viagra para impotência (outro efeito colateral do Celexa).

É óbvio que a indústria farmacêutica fica muito feliz com o uso de todos esses remédios por pacientes psiquiátricos !

A indústria farmacêutica influencia psiquiatras a receitar drogas psicoativas até mesmo a pacientes para os quais os medicamentos não foram considerados seguros e eficazes. O que deve preocupar é o aumento espantoso do diagnóstico e tratamento de doenças mentais em crianças, algumas com apenas 2 anos de idade. Essas crianças são tratadas muitas vezes com medicamentos que nunca foram aprovados pela FDA para uso nessa faixa etária, e têm efeitos colaterais graves. A prevalência de “transtorno bipolar juvenil” aumentou quarenta vezes entre 1993 e 2004, e a de “autismo” aumentou de 1 em 500 crianças para 1 em 90 ao longo da mesma década. Dez por cento dos meninos de 10 anos de idade tomam agora estimulantes diários para o transtorno de déficit de atenção/hiperatividade.

Seria muito difícil achar uma criança de 2 anos que não seja às vezes irritante, um menino de 5ª série que não seja ocasionalmente desatento, ou uma menina no ensino médio que não seja ansiosa. Rotular essas crianças como tendo um transtorno mental e tratá-las com medicamentos depende muito de quem elas são e das pressões que seus pais enfrentam


Fonte: Revista Piauí, Marcia Angell, adaptado

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