Síndrome do pânico: causas genêticas, psicológicas e sociais influem nela

De repente, um medo imenso toma conta do corpo. Falta ar, o coração dispara e há como que um pressentimento de que algo horrível vai acontecer.

Para a maior parte da população, a sensação de pânico é experimentada apenas diante de situações limite e muitas vezes associada a uma ameaça real. Entretanto, segundo um artigo publicado pelo instituo de psiquiatria da USP, em 2005, dos psiquiatras Márcio Bernik e Guilherme Spadini, “10% da população podem sofrer crises sem motivo aparente”, ou seja, ataques de pânico.

E “cerca de 3,5% dessas pessoas sofrem ataques repetidos, o que leva a alterações no comportamento e a um medo intenso de que essas ocorrências se repitam”. Estes são os portadores da síndrome do pânico.

Sinais da síndrome do pânico

Formigamento, suor nas mãos, palidez, tontura e náuseas são outras sensações comuns durante um episódio de pânico. Algumas são difíceis de descrever, “como sentir-se ‘sem chão’, caindo, nas nuvens ou como se não percebesse o próprio corpo. Esses sentimentos são chamados de despersonalização e desrealização”, explica o artigo.

Muitos pacientes têm ainda idéias recorrentes de que vão morrer ou enlouquecer. Cecília*, 21, estudante de comunicação, sofreu com as crises de pânico durante quase um ano e meio e conta que, durante esse tempo, “a vida ficava de certa forma mais frágil”.

Paralisada pelo pânico, ela temia principalmente “que as coisas se prolongassem muito, que pudessem me deixar fora do ar, inepta pra fazer as coisas do dia-a-dia, perturbada pelos efeitos da paralisação”, diz.

Tempos de pânico

Cecília faz parte do grupo mais atingido pela síndrome do pânico: mulheres entre 20 e 35 anos de idade. “É nessa fase que as pessoas sofrem mais pressões profissionais e pessoais”, explicou à revista NOVA a presidente da Associação Nacional da Síndrome do Pânico, Rosana Laiza.

Mas os homens não estão livres do mal, e qualquer indivíduo acometido por mais de quatro episódios de pânico em um único mês é diagnosticado com a doença.

Até 70% das causas da doença são genéticas, enquanto a porcentagem restante está relacionada a fatores ambientais e ao uso de drogas e de remédios. O sentimento de desamparo também abre espaço para que a síndrome se instale.

Existem também causas psicológicas e sociais. Boa parte dos portadores de pânico são pessoas responsáveis, perfeccionistas e independentes. Outros cresceram superprotegidos e têm essa proteção repentinamente retirada. “O sentimento de que estamos sozinhos no mundo e não temos ninguém com quem contar leva a casos de síndrome do pânico”, afirmou o psiquiatra e psicanalista Mário Pereira à revista Emoção e Inteligência.

Somado ao desamparo está uma insegurança diante do número de possibilidades que o mundo atual oferece. “Um século atrás, a doença da moda era a histeria. A pessoa não conseguia viver naquele contexto quadrado, restrito, e despirocava. (…) Hoje, qual é o transtorno da moda? Pânico. É a falta do limite. O pavor de você olhar pro mundo e não saber onde o mundo termina e onde eu começo”, diz Aderbal Vieira Jr., psiquiatra e psicoterapeuta.

Ansiedade antecipatória

Após alguns episódios de pavor, a própria crise e sua imprevisibilidade se tornam motivos para se sentir medo. O paciente sofre então de “ansiedade antecipatória”, sintoma comum para a grande maioria.

“O sistema que regula a ansiedade em pessoas com o transtorno funciona mal. Por isso, elas ficam mais vulneráveis”, explica Geraldo Possendoro, psiquiatra e psicoterapeuta, especialista em medicina comportamental.

Tenso e preocupado com a próxima crise, o portador pode passar a evitar situações que considere de risco, como sair à noite, dirigir ou permanecer em ambientes fechados. Este medo é chamado agorafobia e em nada contribui para superar a síndrome.

“Você passa a pensar que, se evitar determinadas situações, vai estar livre. Mas aí outras situações passam a te incomodar”, conta Cecília, que parou de andar de metrô, mas passou a se sentir desconfortável também a pé, e preferia não sair na rua, mas começou a sentir medo de qualquer barulho que ouvia em casa.

Tratamento da síndrome do pânico

“Acho importante dizer que nesse período eu nunca tomei nenhum remédio”, diz Cecília, que buscou ter autonomia e “tomar as rédeas da situação” em sua recuperação, mas, apesar disso, compreende a validade do uso de medicamentos para tratar a doença.

A idéia de que os remédios são sempre fortes e o medo de seus efeitos são alguns dos estigmas que devem ser quebrados para tratar o transtorno, na opinião de Geraldo Possendoro. É importante também desmontar o preconceito contra o médico psiquiatra, que não é louco, nem “médico de louco”.

Possendoro acredita que o melhor procedimento é combinar terapias cognitivo-comportamentais (relaxamento muscular, respiração diafragmática, meditação concentrativa, reestruturação cognitiva e dessensibilização sistemática) com a medicação.

Em cerca de 97% dos casos, o transtorno desaparece após o tratamento, mas após seis anos da primeira crise, é comum que até 80% dos pacientes sofram uma recaída.

 


Fonte: Abril, 21/11/2008

Leave a comment

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *

*