TOC: 120 milhões tem e muitos outros escondem. Será que você não uma complusão?

Perturbado por pensamentos repetidos e involuntários, o indivíduo procura livrar-se da ansiedade por meio de comportamentos igualmente repetitivos, mas intencionais, que podem ser motores ou mentais. Rigor simétrico, excesso de limpeza e mania de checar a tranca de todas as portas são práticas comuns dos portadores de TOC.

Há também quem sofra casos de excesso de consciência. O paciente desencadeia um medo de perder o controle da própria sexualidade, da própria agressividade, ou outros, e pensa obsessivamente sobre isso.

Neste caso, “existe um exagero de responsabilidade e de fragilidade”, diz José Alberto Del Porto, coordenador do Programa de Distúrbios Afetivos e Ansiosos do departamento de psiquiatria da Universidade Federal de São Paulo. “Eu tinha um paciente que voltava na estrada pra verificar se tinha atropelado alguém”, conta.

“Para serem considerados como um problema médico, os sintomas das obsessões e das compulsões devem ocupar pelo menos uma hora por dia do indivíduo, causar algum tipo de interferência no desempenho das atividades cotidianas ou provocar sofrimento”, resume artigo de Eurípedes Miguel, Roseli Shavitt e Maria Alice de Mathis, da equipe do Projeto Transtornos do Espectro Obsessivo-Compulsivo (Protoc), do Instituto de Psiquiatria da FMUSP.

Os fatores ambientais para o TOC

A literatura médica descreve os sintomas que caracterizam o TOC desde o século XIX e até os anos 50 a doença era considerada rara – estimava-se que 0,05% da população sofria do mal. Hoje, sabe-se que pelo menos 2% da população mundial são portadores do transtorno.

Alguns profissionais justificam o aumento da ocorrência deste e de outros transtornos, como o bipolar, com base na evolução da medicina. Hoje, “o diagnóstico é feito mais precocemente e passamos a tratar formas mais leves que antes nem o especialista prestava atenção”, diz José Alberto Del Porto.

No entanto, mesmo se tratando de doenças de natureza endógena (com componente biológico), não se pode descartar os fatores ambientais como possíveis precipitantes ou intensificadores.

No caso do transtorno bipolar, por se tratar de um distúrbio de humor, cabe avaliar se um meio que propicia mais estresse, pouco descanso e uma imensa variedade de substâncias lícitas e ilícitas que interferem no ânimo – da cafeína à cocaína – não teria sua parcela de responsabilidade. O mesmo vale para o TOC se considerar-se que a doença se alimenta de ansiedade.

Del Porto acredita que “é preciso que haja um loading, uma carga genética. O fator externo, quando muito, é desencadeante” e reforça a tese dos diagnósticos mais ricos.

Para a psicóloga especialista em Teoria Psicanalítica pelo COGEAE/PUC-SP Mariana Brandão, “o adoecimento tem, sim, a ver com o contato com o meio social, mas não de forma generalizante, e sim de acordo com a forma como cada indivíduo vive esse contato, a partir de sua história, de suas marcas, e do seu desejo”.

Tratamento do TOC

Normalmente, o transtorno desponta na infância ou na juventude. Crianças e casos mais graves podem não reconhecer em si as obsessões e compulsões – são os portadores de “TOC com crítica pobre”. Mas a maioria das pessoas não só percebe as práticas, como reconhece que são ilógicas.

“O TOC é caracterizado pela preservação da crítica. O paciente sabe que aquilo é descabido, mas, não obstante, ele não pode parar”, explica Del Porto. “Muitos pacientes obsessivos escondem a doença deles mesmos e dos outros.”

Para o tratamento, geralmente se combina o uso de medicamentos (antidepressivos, ansiolíticos) com a psicoterapia cognitiva. A terapia é feita com um conjunto de técnicas que são capazes de melhorar o TOC em até 80% de sua intensidade. “A ansiedade, mais cedo ou mais tarde, vai diminuir. A pessoa percebe que pode dar conta da ansiedade sem ser através do ritual compulsivo”, explica Del Porto.

O autopreconceito é um dos principais motivos para a demora na procura pelo tratamento. Se você percebe que suas manias estão um tanto exageradas, é preciso aceitar que a doença é comum e procurar a ajuda de um profissional.

O cantor Roberto Carlos e a atriz Luciana Vendramini são casos de pessoas que conseguiram controlar as compulsões e voltaram a ter uma vida normal. Segundo a revista ANA MARIA, no auge da doença, Roberto Carlos chegou a parar de cantar algumas de suas próprias composições, como “Quero que tudo vá para o inferno”, para não ter que pronunciar palavras que ele considerava ligadas ao mal.

Já Luciana provocava feridas na pele por passar até dez horas no banho tentando se livrar de uma sujeira imaginária. Por causa da doença, ela ficou quatro anos praticamente sem sair de casa e foi graças à terapia e aos remédios que conseguiu se recuperar.

 


Fonte: Abril, 21/11/2008

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