Dependência não química: quando a pessoa não concilia o que ela quer, o que pode, o desejo e a lei

Uma prática que dá prazer por minutos ou horas começa a se mostrar necessária e essencial no cotidiano. Surge a sensação subjetiva de perda de controle e de liberdade de escolha. Paralelamente, a dependência começa a causar algum tipo de prejuízo ou disfunção na saúde ou na vida prática.

Toda dependência – química, de relação ou de comportamento – é uma forma patológica. E, segundo Aderbal Vieira Jr., psiquiatra no PROAD (Programa de Orientação e Tratamento de Dependências, da Universidade Federal de São Paulo), “qualquer coisa que dê prazer pode ser vivida com uma dinâmica de dependência.”

De acordo com o Escritório das Nações Unidas contra Drogas e Crime, a ingestão de drogas ilícitas tem crescido no Brasil. O consumo da cocaína, por exemplo, aumentou 30% entre 2002 e 2007.

Mas tão ou mais preocupante é o crescimento das dependências não-químicas. Nos últimos anos, os principais objetos desse tipo de dependência têm sido, segundo o psiquiatra: o jogo, o sexo, as compras e a internet. Outros também relevantes são: a comida, o trabalho e os exercícios físicos.

“Um século atrás, a doença da moda era a histeria. A pessoa não conseguia viver naquele contexto quadrado, restrito, e despirocava”, diz Vieira. Hoje, “a gente vive um contexto de menos restrição. Você tem mais possibilidades e tem certo estímulo da nossa sociedade de consumo.”

A realidade atual ajuda a entender o surgimento de novas dependências e a intensificação de antigas. “Nos dias de hoje, em que tudo parece cada vez mais acessível (…), fica difícil combinar o que se quer e o que se pode, o desejo e a lei”, diz a psicóloga clínica, especialista em dependências químicas, Mariana Brandão.

“Aceitar os limites e as impossibilidades no mundo do aqui e agora se torna improvável. Assim, cada um encontra sua saída, seja pela via do adoecimento ou da perversão, uma saída possível num mundo que tantas vezes nos parece impossível”, completa.

Iniciativa contra a dependência não química

[wpb-product-slider posts="12" title="Compre em nossa loja"]

A tomada de consciência depende muito do grau de dependência em que a pessoa se encontra. Algumas se dão conta da perda do controle. Percebem que a maneira com que aquela prática cotidiana está sendo realizada vai contra a própria vontade – aquilo deveria ser feito com outra finalidade, outra freqüência, em outros momentos.

Mas na maior parte dos casos, o que leva a pessoa espontaneamente ao consultório médico são os malefícios que a dependência desencadeou. É comum que a doença tome o espaço de outras atividades e desorganize outros contextos da vida do paciente. Esses prejuízos o levam a um mal-estar e à conseqüente vontade de mudança.

Outras vezes, os pais levam a criança que está passando tempo demais na frente do computador, ou a esposa leva o marido que mudou o comportamento sexual.

Tratamento contra a dependência não química

O indivíduo se torna dependente quando não encontra recursos internos para lidar com alguma questão problemática e delega essa função a certa prática freqüente. Em geral, o dependente deposita no objeto “algum valor, algum sentido que, no tratamento, ele vai tentar elucidar”, diz Vieira. Adepto da teoria psicodinâmica, ele acredita que o primeiro passo para se curar é obter um bom diagnóstico. Comprovada a dependência, ele indica iniciar a psicoterapia.

“É na transferência (durante a terapia) que ficam evidentes as angústias e defesas do paciente, um certo modo de funcionamento diante do social ou da ausência dele, e, a partir do modo de funcionamento, é feito o diagnóstico de personalidade”, explica Mariana. É objeto de terapia, por exemplo, entender o que faz com que o paciente seja um dependente estável ou alguém que agrava continuamente seu comportamento.

Já o uso de medicamentos depende de algumas circunstâncias. “Associada (a dependência) a uma doença ou em casos mais raros, a pessoa está tão transtornada, que vale a pena abaixar a bola (…), fazer uma abordagem sintomática, pra tentar abaixar o impulso pra que ela possa pensar no que está fazendo”, diz Vieira.

Outros tipos de tratamento optam por lidar com o impulso e usar a medicação em todos os casos (farmacoterapia) ou procuram substituir comportamentos inadequados por outros adequados (terapia comportamental).

 


Fonte: Abril, 21/11/2008

Deixe uma resposta